sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PSDB de Curitiba alugou comitê do PRTB pró-Beto Richa


Embora os coordenadores da campanha de reeleição do prefeito Beto Richa aleguem que o comitê de apoio formado por dissidentes do PRTB era independente, a casa ocupada pelo grupo durante o período eleitoral do ano passado estava alugada em nome do PSDB. No recibo eleitoral referente ao contrato de aluguel, ao qual a Gazeta do Povo teve acesso, Richa aparece como o responsável pela locação do imóvel, embora a assinatura no documento não seja reconhecida como a dele. A reportagem, porém, verificou o número do recibo na prestação de contas de Beto na Justiça Eleitoral e o documento confere com o aluguel do imóvel.

Na Justiça Eleitoral, consta que a locação da casa custou R$ 1,5 mil, pagos a Paulo Antoniazzi, dono do imóvel na época. Ele, por sua vez, doou o mesmo valor para a campanha de Richa. Na prática foi uma cessão não onerosa da casa para a campanha de Richa, que repassou o imóvel para os dissidentes do PRTB, o chamado Comitê Lealdade.
Ex-candidatos do PRTB dizem que receberam propostas de cargos

Candidatos a vereador pelo PRTB no ano passado afirmam que receberam propostas de vantagens – explícitas ou veladas – para renunciar à disputa por uma vaga à Câmara Municipal e apoiar a campanha de reeleição do prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB).

Leia a matéria completa

O presidente do comitê financeiro da campanha de Richa, Fernando Ghignone, não nega que o aluguel do comitê conste da prestação de contas do candidato. Segundo ele, a locação dessa casa e de outras que também abrigaram comitês ditos independentes podem ter entrado nas contas da campanha tucana.

Beto Richa participou da inauguração do Comitê Lealdade, localizado no bairro Ahú, em Curitiba, no dia 11 de agosto de 2008. No vídeo do evento, o prefeito aparece ao lado de Alexandre Gardolinski, que assumiu a coordenação do comitê. Foi em uma sala do imóvel que Gardolinski distribuiu R$ 1.600 a pelo menos 23 dissidentes do PRTB que desistiram de se candidatar a vereador para apoiar Richa, conforme mostra outra gravação que veio a público. No ano passado, o PRTB estava coligado ao PTB do ex-candidato a prefeito Fabio Camargo e, em tese, não poderia apoiar o PSDB.

Gardolinski, em entrevista à Gazeta, não revelou qual foi a origem desse dinheiro, mas admitiu que ele não foi declarado à Justiça Eleitoral, o que pode caracterizar caixa 2 , pois os dissidentes alegam que a verba foi usada para custear gastos da campanha de Richa.


A reportagem tentou falar com o dono do imóvel, Paulo Antoniazzi, que seria parente de Gardolinski. Recados foram deixados na casa de familiares, inclusive com Gardolinski. Mas não houve retorno.

Investigação

O Ministério Público Eleitoral do Paraná confirmou que está de posse das gravações e que está investigando o caso. Até o momento, a principal consequência da divulgação do vídeo foi a exoneração de Alexandre Gardolinski, que ocupava o cargo de gestor da Secretaria Municipal de Trabalho. Também foram demitidos o secretário municipal de Assuntos Metropolitanos, Manassés de Oliveira, e Raul D’Araújo, superintendente da Secretaria de Assuntos Metropolitanos. Ambos aparecem nas gravações, juntamente com Gardolinski.

Rio Grande do Sul Manifestantes protestam contra Yeda e relator de CPI


Cerca de 500 manifestantes ligados ao Fórum de Servidores Públicos Estaduais do Rio Grande do Sul (FSPE/RS) e a movimentos estudantis promoveram nesta quarta uma série de protestos contra a governadora Yeda Crusius (PSDB) e o relator da CPI da Corrupção, Coffy Rodrigues (PSDB). Durante a madrugada, as estátuas de Santos Dumont, em Canoas, e do Laçador, em Porto Alegre, foram cobertas por capuzes com a inscrição "Deputado Coffy nos deixa cobertos de vergonha. Está do lado da corrupção. Fora Yeda, impeachment já". Peças semelhantes também foram colocadas em outros bustos de parques e praças da capital gaúcha, mas todas foram retiradas em poucos minutos pela Brigada Militar, a polícia gaúcha.

Nas primeiras horas da manhã, os sindicalistas distribuíram panfletos na Esquina Democrática, no centro da cidade, acusando Coffy e os deputados aliados de Yeda de obstruírem a CPI, instalada há quase um mês na Assembleia Legislativa do Estado para investigar se agentes públicos participaram ou encobriram irregularidades no Detran e em licitações. A comissão já se reuniu três vezes, mas não teve quorum para votar requerimentos porque os governistas não compareceram.

Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários marcharam do bairro Azenha até o centro da cidade pedindo o impeachment de Yeda e o afastamento de Coffy da CPI. Ao final, os dois grupos se juntaram na Praça Marechal Deodoro e entraram na Assembleia Legislativa, onde subiram até o quarto andar e ocuparam o corredor de acesso ao gabinete de Coffy.

O deputado chegou a receber dos estudantes um pedido para que se afaste da CPI. Os manifestantes ficaram no local por cerca de meia hora e depois saíram do prédio. "Pedimos uma postura adequada do parlamentar perante a opinião pública, que quer respostas para as denúncias de corrupção no Estado", relatou um dos líderes da manifestação, Rodolfo Mohr.

Coffy considerou os protestos como "normais" e chegou a desdenhar deles ao dizer que seu nome estava muito pequeno nos cartazes expostos pelos manifestantes. "Os motoristas que passavam não conseguiam nem ler", afirmou, prometendo que continuará como relator da CPI e disposto a voltar às reuniões quando a presidente da comissão, Stela Farias (PT), colocar em votação o plano de trabalho que ele elaborou. A deputada petista sustenta que acolheu 12 das 16 sugestões apresentadas pelo tucano e que a organização do trabalho é prerrogativa do presidente e não do relator.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Fome, nunca mais!

João Arruda

Segurança alimentar é o conceito segundo o qual nenhuma pessoa pode ser privada da alimentação básica, que deve ser suficiente (em termos de quantidade e qualidade) não apenas para não morrer de fome, mas para manter a saúde e, no caso das crianças e adolescentes, a possibilidade de um desenvolvimento saudável. O conceito inclui, obviamente, a obrigação do Estado em prover essa necessidade.
Em algum momento, espero que não muito distante, teremos segurança de moradia, segurança de emprego, segurança de educação e cultura. Hoje, porém, ainda é necessário falar da fome, pos, apesar de todos os esforços, o problema permanece em todo o país. Como dizia o saudoso Betinho, pai espiritual dos programas de combate à fome, quando um cidadão é privado de comida, é porque tudo o mais lhe foi tirado.
A cidadania começa aí. O governo Lula rompeu com todos os padrões anteriores ao criar o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à fome e ao instituir o Sistema Nacional de Segurança Alimentar. Contrariamente ao dogma neoliberal do estado mínimo, o Brasil assume hoje o combate à fome como prioridade nacional.
Fiz este preâmbulo para comentar a política paranaense no setor. O Estado vai investir, até 2010, R$ 1,3 bilhão em segurança alimentar e a coloca como parte indissociável das políticas sociais.
O Governo do Paraná a define ainda como “a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso às outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis”.
Creio que aí está dito tudo. Para a implementação desta política, o Paraná é o único estado brasileiro que dispõe de um software que identifica todas as ações e programas oficiais de segurança alimentar.
O software permite saber onde reforçar o orçamento para investir em segurança alimentar, evitando a dispersão de esforços por vários órgãos do governo e garantindo a racionalização da aplicação dos recursos e fiscalização dos resultados dessas ações.
O governo trabalha hoje em duas dimensões: a alimentar, que engloba a produção, disponibilidade, auto-suficiência, acesso, recuperação, manutenção da saúde e sustentatibilidade, e a nutricional, que trata das relações entre homem e alimento, escolha, consumo, saúde e condições de vida.
Foi necessário trabalhar em três direções: o diagnóstico da realidade socioeconômica do Estado, a concepção de desenvolvimento e a organização dos sistemas de acompanhamento e avaliação.
O primeiro grande desafio foi desenvolver o Estado a partir das diferenças, priorizando os espaços socialmente críticos, reduzindo as disparidades regionais com ações promotoras de desenvolvimento.
A política de segurança alimentar faz parte das diretrizes fundamentais do atual governo. Com a Política de Desenvolvimento do Estado, conseguimos criar políticas públicas que constroem, no dia a dia, um estado democrático, justo e progressista, diferentemente do modelo excludente e gerador de desigualdades sociais que vigorava até 2002.
Nenhum governante honrado pode deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranqüilamente quando sabe que há concidadãos privados do mais elementar dos direitos: o direito de não passar fome.

João Arruda, 33 anos, é fisiologista do esporte e secretário-geral do PMDB do Paraná

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Reforma eleitoral será retomada


Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG) conversam com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), no plenário. Relatório da dupla, que restringia atuação da internet, foi bastante criticado


Está em gestação um dos maiores golpes patrociando pelo Senado Federal, para desequilibrar o jogo democrático em favor de José Serra em 2010.
Projeto relatado por Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que trata de restrições à internet e da sucessão de prefeitos e governadores cassados, será votado nesta terça-feira no Senado
REDAÇÃO ÉPOCA
ABR
POLÊMICA

O Senado vai retomar na tarde desta terça-feira (15) a votação da reforma eleitoral, um conjunto de medidas para alterar algumas regras das eleição de 2010, que escolherá novos deputados estaduais e federais, senadores, governadores e o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A votação deveria ter ocorrido na última quinta-feira (10), mas acabou adiada por falta de quorum. O principal obstáculo para a aprovação do projeto era a forma como seria feita a sucessão de prefeitos, governadores e do presidente em caso de cassação do mandato. Segundo informou a assessoria do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o impasse foi resolvido graças a um acordo entre os líderes partidários. Ficou decidido que uma nova eleição direta será realizada para substituir os donos de cargo no Executivo que forem cassados.

O motivo da polêmica foi a emenda que tratava do assunto, de autoria do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Ele defendia a mudança do sistema atual – por meio do qual o segundo colocado nas eleições assume a vaga – mas sugeriu que a escolha do novo governante fosse feita por meio de eleição indireta. Sarney foi um dos que se posicionou contra a emenda, reclamando da possibilidade de eleição indireta. Em abril deste ano, a filha de Sarney, Roseana (PMDB), deixou o Senado para assumir o governo do Maranhão depois que Jackson Lago, que a derrotou na eleição de 2006, foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Restrição à internet também causa polêmica

A possibilidade de o trabalho jornalístico na internet ficar restrito também pode acirrar os ânimos no Senado. O projeto original, relatado pelos senadores Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), prevê que sites de notícia funcionem da mesma maneira que o rádio e a televisão: os veículos informativos, sejam portais sites de jornais e revistas, só podem fazer menção a um candidato cedendo o mesmo espaço a todos os outros. Em blogs e redes sociais como o Orkut e o Twitter a opinião seria liberada, mas elas deveriam garantir direito de resposta aos candidatos.

A ideia canhestra de controlar a internet foi criticada em diversos setores da sociedade e deve cair. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que chegou a anunciar sua renúncia ao cargo de líder do PT na Casa pelo Twitter – antes de voltar atrás – apresentou uma emenda que libera o uso irrestrito da internet. A visão de que controlar a internet é algo quase impossível deve prevalecer, e as restrições devem ser derrubadas no Plenário.

Para entrar em vigor nas eleições de 2010, a reforma eleitoral tem que ser aprovada pelo Senado e pela Câmara e sancionada pelo presidente Lula até o próximo dia 3 de outubro.

'Governos dos países ricos são culpados pela crise', diz Lula

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou duramente os "países ricos", o G8 e outros organismos internacionais, e responsabilizou os governos de países desenvolvidos pela crise econômica mundial.

"Os governos dos países ricos são os culpados (pela crise) por que não cuidaram da regulamentação do mercado", disse o presidente, em entrevista exclusiva à BBC sobre o colapso do sistema financeiro global.

Lula se posicionou como uma espécie de porta-voz informal dos países em desenvolvimento desde o começo da crise. Ele vem defendendo o que acredita ser os interesses dos pobres em lugares como América Latina, África e Ásia, pedindo mudanças no sistema financeiro global.

Na entrevista com a BBC, Lula afirmou que os governos dos países ricos "sabiam como dar palpite em tudo sobre a economia dos países em desenvolvimento. Agora, quando a dor de barriga aconteceu com eles, eles não sabiam como agir".

Suas críticas também foram dirigidas a instituições econômicas internacionais: "O FMI não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. O Banco Mundial não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. E os governos também não tinham!”

'Banqueiros de olhos azuis'

O presidente Lula também insistiu em afirmar que a crise foi criada por banqueiros brancos de olhos azuis no mundo rico. A expressão causou polêmica quando o líder brasileiro a pronunciou pela primeira vez, em março deste ano, ao lado de Gordon Brown, durante visita do primeiro-ministro britânico a Brasília.

Àquela época, Lula foi criticado por ter usado a expressão, considerada por muitos como inapropriada, quase racista. Durante essa entrevista, gravada para a série especial "The Love of Money", da BBC 2, o presidente disse que não se arrependia, e voltou a falar da mesma forma.

"Aquilo que eu queria dizer está mais forte hoje do que estava na época. O que eu quis dizer era que não eram os índios ou os negros que deveriam pagar a conta (pela crise), mas sim os responsáveis pela crise, que eram os banqueiros de olhos azuis. E que não jogassem a culpa em cima dos pobres do mundo, como sempre acontece quando tem uma crise econômica", disse Lula.

O presidente, entretanto, parece muito confiante em que os líderes do G20 (o grupo das 20 maiores economias do mundo) consigam encontrar soluções para a crise, se continuarem a trabalhar juntos.

""Espero que não seja um fórum apenas para resolver o problema da crise. Os pobres do mundo, os emergentes do mundo são chamados apenas para resolver o problema da crise e, quando a crise terminar, acaba-se com o G-20 e volta ao G-8"."

Luiz Inácio Lula da Silva

Eles se encontrarão novamente para discutir a crise em Pittsburgh, nos EUA, nos dias 24 e 25 de setembro, e o Brasil espera influenciar o debate, pedindo a consolidação do grupo e mais mudanças no sistema financeiro.

Lula defendeu o grupo, afirmando que o G20 está se tornando um fórum extremamente importante para debater e encontrar soluções para a economia. Ele também argumenta, entretanto, que o grupo deve ampliar seus objetivos e começar a discutir e implementar políticas para acelerar o desenvolvimento de países pobres.

"Espero que não seja um fórum apenas para resolver o problema da crise. Os pobres do mundo, os emergentes do mundo são chamados apenas para resolver o problema da crise e, quando a crise terminar, acaba-se com o G-20 e volta ao G-8".

De acordo com o presidente brasileiro, o G8 não tem credibilidade para lidar com os novos desafios da economia global.

"O problema é que o G-8 é um clube fechado. Do ponto de vista da discussão da crise econômica, acho que o G8 não tem legitimidade", disse ele. Leia abaixo a entrevista do presidente Lula à BBC.

BBC - Dia 15 de setembro de 2008. O banco de investimentos Lehman Brothers quebra. O senhor pode me contar como foi informado da quebra? Como o senhor recebeu a notícia? Qual foi o impacto dela?

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva - A notícia foi dada com muito destaque em todos os meios de comunicação do Brasil. Lembro que no dia seguinte fizemos uma reunião com o Ministério da Fazenda e o Banco Central para discutir os efeitos da quebra do Lehman Brothers. E, na verdade, o que constatamos é que a quebra do Lehman Brothers era apenas o resultado de um modelo econômico que estava falindo, de um modelo baseado na especulação financeira, que tinha dado sinais muito fortes (de fragilidade) um ano antes. Lembro que estava no Panamá quando saíram as primeiras notícias do subprime, dos títulos imobiliários americanos, eu estava numa reunião empresarial. Alguns empresários ficaram preocupados, alguns brasileiros, e comecei a brincar, perguntando se alguns deles tinham dinheiro aplicado no subprime. A partir dali fazíamos reuniões mensais (de avaliação da crise do subprime) no Brasil, até que quebrou o Lehman Brothers. Aí acho que chegamos ao ápice da crise porque, com a quebra do Lehman Brothers, a sequência natural foi a extinção do crédito internacional. Acabou o crédito para todo mundo, sumiram os dólares que estavam passeando pelo mundo. Diziam que havia trilhões e trilhões de dólares atravessando o oceano e, de repente, desapareceram esses dólares. Não tinha mais crédito no mundo e isso teve, inclusive no Brasil, efeitos muito desastrosos.

BBC - Especificamente no dia ou no dia seguinte, com quem o senhor conversou? Em que momento o senhor entrou em contato com os Estados Unidos, por exemplo? Quem é que lhe deu a notícia?

"Acho que houve um exagero de setores empresariais brasileiros. Como a indústria automobilística, que deu férias coletivas no final do ano, ficou praticamente um mês sem produzir para desovar o estoque."

Luiz Inácio Lula da Silva

Lula - Na verdade não entrei em contato com os EUA porque havia contatos do ministro da Fazenda brasileiro com o ministro americano, do presidente do Banco Central brasileiro com o do Banco Central americano. Minha conversa era diretamente com o pessoal da área econômica brasileira. Começamos a sentir problemas mais sérios, como a falta de crédito. Empresas como Petrobras, Vale do Rio Doce, tinham problemas de tomar dinheiro lá fora. Nossos exportadores começaram a ter problemas e problemas. Antes fazíamos uma avaliação de que a crise chegaria no Brasil com um efeito muito pequeno. Não apenas economistas do governo, mas economistas da oposição. Todo mundo dizia que por conta do subprime a crise seria muito pequena no Brasil. Até que quebra o Lehman Brothers. O que aconteceu? Tivemos em setembro, outubro, novembro e dezembro muito pânico junto ao empresariado brasileiro, aos meios de comunicação. Acho que houve um exagero de setores empresariais brasileiros. Como a indústria automobilística, que deu férias coletivas no final do ano, ficou praticamente um mês sem produzir para desovar o estoque. (Isso) causou um impacto muito grande no PIB industrial, coisa que não precisaria ter causado. Alguns empresários que estavam com projetos de investimentos já aprovados pelo BNDES pararam para ver o que estava acontecendo. E aí todo mundo começou a ficar com medo. Fui à TV no dia 22 de dezembro convocar o povo a comprar, porque dizia-se que se o povo comprasse, fizesse dívida e ficasse desempregado, não teria como pagar. Eu fui dizer que se ele não comprasse poderia perder o emprego, porque a economia ficaria atrofiada. O dado concreto é que no comércio varejista continuamos crescendo. Ninguém reclamou. O povo continuou consumindo e o Estado continuou fazendo seus investimentos, ou seja, a crise se deu exatamente na iniciativa privada, no sistema financeiro, no crédito internacional. Porque também os bancos brasileiros não estavam subordinados à especulação como estava a economia internacional. Porque nós temos uma regulamentação em que o sistema financeiro só pode alavancar até 10 vezes seu patrimônio líquido, quando no exterior você poderia especular 30 vezes, 35 vezes.

BBC - Voltando um pouco, presidente, em que momento exatamente o senhor se deu conta de que crise poderia bater forte no Brasil?

Lula - O momento mais duro foi quando vi a Petrobras ir à Caixa Econômica tomar dinheiro emprestado, competindo com pequenos empresários. E por que a Petrobras foi à Caixa Econômica? Porque não tinha crédito fora (do Brasil). Agora imagine você, uma empresa como a Petrobras, com valor patrimonial de mais de US$ 200 bilhões, não conseguir empréstimo no exterior é porque a coisa estava realmente muito ruim. Bem, depois disso, eu acredito que tomamos algumas decisões importantes. É importante lembrar que havíamos criado o PAC em 2007. Não se falava em crise quando adotamos o maior programa de investimentos em obras de infraestrutura já feito no Brasil. Eram US$ 304 bilhões previstos até 2010 na área de infraestrutura, na área de saneamento básico, na área de habitação. Quando a crise se aprofundou, começamos a tomar medidas anticíclicas, que permitiram que a economia brasileira fosse analisada como a que tinha entrado por último na crise, e que poderia sair primeiro da crise. E isso nos deixou mais otimistas. Alguns setores empresariais começaram a fazer mais investimentos. Em reuniões com o BNDES provoquei meu amigo Luciano Coutinho (presidente do banco) para que chamasse os empresários que tinham investimentos financiados pelo BNDES a começar a tocar as obras. Em todas as obras de infraestrutura, acordamos para que as empresas contratassem dois ou três turnos, para que a gente pudesse gerar os empregos que a economia precisava. E penso que isso conseguiu estabilizar. No primeiro semestre de 2009, por exemplo, a indústria automobilística vendeu mais que no mesmo período de 2008. Porque nós demos incentivos. Abrimos mão de determinados tributos para fomentar a linha branca, geladeira, máquina, fogões, carros, material de construção civil. Lançamos um programa muito grande de construção, de um milhão de casas, para incentivar a construção civil. Tudo isso permitiu que nós, sem abrir mão de nenhum centavo na política social, sem abrir mão de um centavo no PAC, criássemos mais políticas de investimento para enfrentar a crise. Porque nós também entendíamos que era uma crise diferente. Não era uma crise de contenção ou de ajuste fiscal, era uma crise de investimento. Era uma crise na qual o Estado deveria aparecer como sujeito da história. O Estado precisava fazer aquilo que a iniciativa privada não conseguia fazer. E, graças a Deus, nós conseguimos dar passos importantes.

BBC - Na sua opinião, quais foram os fatores que levaram a essa crise?

""Penso que agora as pessoas estão percebendo que o Estado tem um papel extraordinário no equilíbrio das relações econômicas internas e externas"."

Luiz Inácio Lula da Silva

Lula - Acho que a primeira coisa foi a falta de regulamentação do sistema financeiro. Quando você tinha crise na Ásia, na Rússia, no Brasil ou no México, eram crises de países em desenvolvimento. As pessoas não davam muita importância, exigiam que os países fizessem ajustes fiscais muito fortes, a economia ficava atrofiada, até falamos de década perdida. No fundo foram duas décadas perdidas na América do Sul. Essa crise acontece quando todos os países da América do Sul, da América Latina, vivem um momento excepcional de crescimento. E a especulação, bancada pelos países ricos, é que levou a essa crise. Não havia nenhuma regulamentação no sistema financeiro. O que justificou o preço da soja e de outras commodities subirem de forma astronômica, sem nenhum critério, a não ser a especulação financeira? As pessoas estavam fugindo do subprime e entraram no mercado futuro de commodities. Quando os preços das commodities começam a voltar à normalidade, começa a especulação imobiliária nos Estados Unidos. E, depois disso, começamos a saber que os bancos não tinham a menor regulamentação. Acho que foi uma lição de vida para todo mundo. O sistema financeiro não pode deixar de ter regulamentação. E o Estado não pode deixar de ter um papel importante, de indutor e regulador da economia dos países. Aquela tese do Consenso de Washington de que o Estado tem que ser mínimo, de que o Estado não pode nada, de que o Estado atrapalha e de que o mercado podia tudo acabou! Acabou porque, quando o sistema financeiro quebrou, quem era o paizão que tinha que ajudar? Era o Estado. Foi o Estado americano que teve que colocar dinheiro, o Estado brasileiro que teve que colocar dinheiro, o Estado alemão que teve que colocar dinheiro. Penso que agora as pessoas estão percebendo que o Estado tem um papel extraordinário no equilíbrio das relações econômicas internas e externas.

BBC - Essas foram as causas. Quem são os responsáveis por isso?

Lula - São os governos. Os governos, que não cuidaram da regulamentação.

BBC - Que governos especificamente?

Lula - Veja, não tem uma pessoa. É um sistema. Não era possível que os bancos continuassem ganhando dinheiro sem produzir uma caneta, uma folha de papel, um sapato. Apenas especulando, especulando. Era o papel A que passava para a mão do banqueiro B, depois o papel C passava para mão do B, ou seja, o mesmo papel fazia muita gente ganhar dinheiro sem produzir uma peça qualquer.

BBC - Sim a culpa é dos governos. Mas de todos os governos? Ou dos governos dos países ricos?

Lula - Acho que nesse caso é dos países ricos. Por quê? Porque acreditaram durante décadas que o mercado por si só resolveria todos os problemas. Aí quando o mercado se mostrou frágil, incompetente, aí os Estados começaram a perceber que tinham que agir. E agir fortemente. E no Brasil nós não vacilamos. No Brasil nós tomamos as medidas que tínhamos que tomar para permitir que a economia se recuperasse mais rapidamente. Os países ricos são os mais culpados porque sabiam dar palpite em tudo sobre a economia dos países em desenvolvimento. Agora, quando a dor de barriga aconteceu com eles, eles não sabiam como agir. O FMI não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. O Banco Mundial não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. E os governos também não tinham! Daí a importância das decisões que foram tomadas, de articular o G20. O G8 já não resolvia mais o problema da crise econômica, até porque eram os países do G8 que tinham a maior responsabilidade pela crise financeira. E eles sabiam que a irracionalidade do sistema financeiro deles ia causar prejuízos mais fortes nos países mais pobres, sobretudo nos países da África, e aí se criou o G20, que, acho, começou a encaminhar soluções importantes para o problema da crise econômica.

"O que eu quis dizer era que não eram os índios ou os negros que deveriam pagar a conta mas sim os responsáveis pela crise, que eram os banqueiros de olhos azuis."

Luiz Inácio Lula da Silva

BBC - Do seu ponto de vista, o Brasil fez toda a lição de casa, estava num grande momento, ia explodir e acontece a crise. Como o senhor pessoalmente se sentiu quando percebeu que, apesar de ter feito toda a lição de casa...

Lula - Essa é uma coisa muito engraçada porque, no mês de junho (de 2008), fizemos uma reunião da equipe econômica e da coordenação de governo, nós estávamos preocupados com o excesso de crescimento do Brasil. Ou seja, estávamos com um olho na inflação e, ao mesmo tempo, com um olho no alto consumo brasileiro. A indústria automobilística estava vendendo muito, o povo estava comprando muito, e eu sei que me foi feita a sugestão de que a gente começasse a fazer um pouco de contenção no consumo. E eu dizia que a gente não poderia fazer contenção no consumo, porque se a gente aumentasse o preço do carro, diminuísse a quantidade de prestações, criasse o IOF, a gente ia dar injeção na veia para desativar a economia brasileira, e eu não queria. E aí veio a crise, sabe, desativou por conta própria. Eu diria um pouco porque ela foi muito forte e um pouco porque muitos empresários brasileiros ficaram com medo. Essa é a verdade. Nós tivemos 50% ou 60% de crise e nós tivemos 40% de pânico. Muitas pessoas agiram de forma precipitada no enfrentamento da crise, sobretudo os investidores. E no governo nos resolvemos, então, tomar as medidas que tínhamos que tomar.

BBC - Mas como o senhor se sentiu, pessoalmente, quando o senhor percebeu...

Lula - Eu me senti decepcionado. Porque depois de 20 anos sem crescimento econômico, depois de o Brasil fazer tudo o que tinha que fazer, depois de a gente estabilizar a economia brasileira, depois de a gente controlar a inflação, depois de a gente lançar um programa de desenvolvimento... Não apenas o Brasil mas toda a América do Sul e América Latina vinham vivendo um momento de ouro. As economias cresciam acima de 5% em todos os países e, de repente, nós, que passamos a vida inteira sofrendo a amargura da instabilidade, quando estávamos estáveis, o mundo rico, que parecia estável, estava instável. Houve uma mudança de comportamento nas crises e foi muito decepcionante para países da América do Sul, países africanos, da América Latina, porque nós estamos sendo vítimas da irresponsabilidade dos países ricos.

BBC - Vamos então para o G20, um assunto que o senhor já tocou. Antes da reunião do G20, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, visitou o Brasil, numa preparação para o G20. E, ao lado dele, o senhor deu aquela famosa declaração de que a responsabilidade da crise é dos banqueiros brancos de olhos azuis. O que o senhor queria dizer com aquela frase, dita ao lado do primeiro-ministro da Grã-Bretanha?

Lula - Aquilo que eu queria dizer está mais forte hoje do que estava na época. Porque o que é que tem acontecido na Europa? Muitos países, para resolver o problema da crise, estão dificultando a vida dos imigrantes. Ou seja, os pobres do mundo que trabalham no mundo rico são as primeiras vítimas da crise econômica. Tem muita gente que faz até campanha, dizendo que é preciso diminuir a migração para que sobre emprego para os europeus em detrimento aos pobres do mundo que estão aqui (na Europa). O que eu quis dizer era que não eram os índios ou os negros que deveriam pagar a conta mas sim os responsáveis pela crise, que eram os banqueiros de olhos azuis. Ou seja, não eram os índios, não eram os negros, sabe, não eram os asiáticos que estavam aqui, não era povo pobre do mundo árabe. Eram os ricos que tinham sido responsáveis pela crise. E que não jogassem a culpa em cima dos pobres do mundo, como sempre acontece quando tem uma crise econômica.

BBC - Tinha algum significado especial o senhor falar aquela frase ao lado do primeiro-ministro Gordon Brown? O tom da pergunta é porque na Grã-Bretanha isso foi interpretado como um sinal de fraqueza do Gordon Brown. Ele vai visitar o mundo e encontra um líder de uma grande nação criticando os países ricos. Ele não tem olhos azuis, mas é branco e tido como um dos responsáveis pela crise...

Lula - Eu jamais teria a intenção de ofender o Gordon Brown, por quem tenho um profundo respeito. Foi um homem que, enquanto ministro da Economia do Reino Unido defendeu o Brasil e foi solidário com meu governo desde o momento em que tomei posse. Eu jamais teria interesse em fazer qualquer ofensa ao Gordon Brown. O que eu fiz foi uma relação entre os pobres do mundo, que iriam ser vítimas da crise, e os ricos do mundo, que causaram a crise.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Obama estende embargo a Cuba por mais um ano


A ampliação do embargo ocorre apesar de Obama ter feito da abertura a Cuba uma plataforma de sua política externa
14/09/2009 | 16:07 | agência Estado

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estendeu por um ano o embargo comercial contra Cuba, anunciou nesta segunda-feira (14) a Casa Branca por meio de nota.

A manutenção do embargo era esperada e vem sido repetida anualmente por todos os presidentes americanos desde a década de 1970, por exigência da chamada Lei de Comércio com o Inimigo.

A ampliação do embargo ocorre apesar de Obama ter feito da abertura a Cuba uma plataforma de sua política externa.

A extensão do embargo foi assinada na sexta-feira, 11 de setembro, mas foi divulgada apenas nesta segunda (14).

O lobo perde os pelos mas continua a ser lobo.

Serra e PSDB defendem "princípios éticos" de Yeda Crusius


Manifesto assinado pelo governador de São Paulo e por lideranças nacionais do PSDB dá total solidariedade à governadora do Rio Grande do Sul, acusada pelo Ministério Público Federal de integrar uma quadrilha que estaria instalada no aparelho de Estado. Documento destaca longa trajetória política de Yeda, "construída com competêncis e respeito a princípios éticos". Neste momento, governadora gaúcha é alvo de um processo de impeachment na Assembléia Legislativa. CPI investiga fraude que pode ter desviado mais de 340 milhões dos cofres públicos.

Redação - Carta Maior

O governador de São Paulo, José Serra, assinou um manifesto do PSDB em defesa da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, acusada pelo Ministério Público Federal do RS de integrar uma quadrilha que estaria instalada do aparelho de Estado. O manifesto destaca a "competência e o respeito a princípios éticos" de Yeda e dá total solidariedade à governadora que enfrenta um processo de impeachment na Assembléia Legislativa do RS. O texto afirma:

"A direção nacional do PSDB, os governadores eleitos pelo PSDB e os líderes partidários vêm reiterar o enorme respeito que têm pela governadora Yeda Crusius e por toda a sua longa trajetória política, construída com competência e respeito a princípios éticos.

Estamos seguros de que a governadora saberá responder a cada uma das acusações que lhe são imputadas por seus opositores no Estado.

Lamentamos ainda que a radicalização do quadro político no RS esteja colocando em segundo plano a importante obra administrativa do Governo Estadual, que vem buscando, com extrema seriedade, o equilíbrio das contas públicas e o resgate da credibilidade interna e externa do Estado.

Com este documento tornamos pública nossa total solidariedade à governadora Yeda Crusius, ao PSDB do RS e aos nossos aliados".

Assinam o documento:

José Serra - Governador de São Paulo
Aécio Neves - Governador de Minas Gerais
Teotônio Vilela Filho - Governador de Alagoas
José de Anchieta Junior - Governador de Roraima
Sérgio Guerra - Senador, presidente do PSDB
Arthur Virgílio - Senador
José Aníbal - Deputado Federal